Um produtor de limões certificado por uma das principais selos internacionais de boas práticas agrícolas foi incluído na Lista Suja do trabalho escravo, atualizada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) nesta quarta-feira (9), após ser flagrado mantendo 20 pessoas em condições análogas à escravidão em uma fazenda no município de Aparecida do Taboado.
Entre os trabalhadores resgatados, estava um adolescente. Todos atuavam na colheita do limão sem qualquer registro em carteira e sem equipamentos de proteção.
Segundo o relatório da fiscalização, o grupo chegou a ficar por nove dias alojado em um curral, sem banheiros e com cobertura apenas no telhado. Posteriormente, foram levados a um galpão na área urbana da cidade, onde dormiam em camas amontoadas, sem janelas, com banheiros precários e sem chuveiros. A água saía de um cano, sem qualquer aquecimento.
Os trabalhadores afirmaram que recebiam apenas almoço e jantar, e que frequentemente tinham de colher limões em jejum. “Teve bastante menino que adoeceu”, relatou um dos resgatados.
Outro disse ter pedido dinheiro à esposa para comprar comida. Um trabalhador chegou a ferir o olho nos espinhos do pé de limão e ficou dois dias sem assistência médica. Só foi levado a um pronto atendimento após os colegas se recusarem a continuar trabalhando sem atendimento ao ferido, que, ao chegar no hospital, foi instruído a mentir, dizendo que não estava trabalhando.
No momento da fiscalização, o gerente que acompanhava o grupo tentou esconder o alojamento e orientou que todos fossem embora, mas os trabalhadores se recusaram. A operação resultou em 22 autuações, incluindo também irregularidades no armazenamento de agrotóxicos e nas instalações elétricas tanto da fazenda quanto dos alojamentos.
O produtor em questão possuía certificação ativa da GlobalG.A.P, organização internacional que promove boas práticas agrícolas em mais de 135 países. A certificação reconhece, entre outros critérios, a garantia de saúde e bem-estar dos trabalhadores.
Apesar do flagrante ocorrido em fevereiro de 2024, a certificação só deixou de constar no portal da organização após a publicação de reportagem sobre o caso. A empresa alegou que o selo aparecia como ativo por “problema técnico” e que o produtor "não está certificado no momento".
Em nota, a GlobalG.A.P afirmou que condena abusos contra trabalhadores, mas também destacou que “atos criminosos estão fora do escopo de todos os sistemas de certificação”, cabendo às autoridades legais apurar e punir violações.
O caso também é alvo de uma Ação Civil Pública ajuizada pelo MPT-MS (Ministério Público do Trabalho). O órgão pede o pagamento de R$ 4,7 milhões por danos morais coletivos e individuais. Segundo o MPT, houve dolo na conduta, com o empregador agindo de forma consciente para obter lucro com base na exploração dos trabalhadores.
Mesmo após a autuação, a empresa associada ao produtor continuou divulgando nas redes sociais propagandas de limões certificados e exportados para diversos países da Europa. Dados alfandegários confirmam que a empresa já forneceu frutas para grandes distribuidoras internacionais, como a britânica Four Seasons Harvest, ligada ao grupo Dole, e a holandesa Jaguar The Fresh Company.
Questionadas, ambas as distribuidoras negaram envolvimento direto com os lotes de limão provenientes da fazenda onde ocorreram os resgates. A Dole afirmou ter recebido garantias de que os produtos não vieram da propriedade em questão.
Já a Jaguar confirmou que um fornecedor recebeu produtos da empresa e que abriu investigação interna sobre o caso. Ambas destacaram que utilizam a certificação GlobalG.A.P como critério básico para avaliar as condições sociais de seus fornecedores.
Os trabalhadores resgatados disseram que foram recrutados em outra cidade com a promessa de boas condições e salários acima da média. “Quando surge uma oportunidade de ganhar um pouco mais, a gente se interessa. Mas não sabíamos que seria assim”, relatou um deles.
Fonte: Repórter Brasil/MS Todo Dia
Foto: Freepik
Você também pode gostar de ler
IPVA 2026: quarta parcela vence nesta quinta-feira em Mato Grosso do Sul
Pagamento deve ser feito até 30 de abril para evitar multas e garantir regularidade do veículo
Publicado em 28/04/2026 às 09:04 - Atualizado em 28/04/2026 às 09:13 - Por Gabi Ferreira
MPMS acompanha cumprimento de acordo após incêndio que destruiu mais de 160 hectares em Coxim
Responsável foi multado e deverá recuperar área degradada; caso envolveu cinco propriedades rurais
Publicado em 24/04/2026 às 09:38 - Atualizado em 24/04/2026 às 09:59 - Por Gabi Ferreira
Motociclista relata ataque de onça-parda em rodovia de Ribas do Rio Pardo
Jovem sofreu escoriações leves; caso ainda não foi confirmado por autoridades ambientais
Publicado em 24/04/2026 às 07:44 - Atualizado em 24/04/2026 às 07:55 - Por Gabi Ferreira
MS registra 70 casos de ferrugem asiática da soja na safra 2025/2026
Doença avançou entre dezembro e janeiro e já atinge lavouras de 23 municípios no Estado
Publicado em 21/04/2026 às 10:09 - Atualizado em 21/04/2026 às 10:30 - Por Gabi Ferreira
Riedel reforça diálogo com setor produtivo para impulsionar desenvolvimento de MS
Governador destacou avanços do agronegócio e discutiu novas iniciativas, uma delas é a criação de uma nova escola no Pantanal sul-mato-grossense
Publicado em 17/04/2026 às 07:46 - Atualizado em 17/04/2026 às 07:49 - Por Gabi Ferreira
Detran-MS altera calendário de licenciamento de veículos para 2026; confira
Nova portaria foi publicada em Diário Oficial e redefine prazos conforme final de placa
Publicado em 13/04/2026 às 09:05 - Atualizado em 13/04/2026 às 09:09 - Por Gabi Ferreira
Empresário garante continuidade da fábrica após incêndio em Aparecida do Taboado
Dono da Pais e Filhos afirma que não haverá demissões e destaca atuação dos bombeiros durante tragédia
Publicado em 13/04/2026 às 08:06 - Atualizado em 13/04/2026 às 08:07 - Por Gabi Ferreira